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Desafios da sustentabilidade nas concessões de infraestrutura

Risco, Regulação e Modicidade Tarifária são alguns dos obstáculos das licitações

Os contratos de concessão e demais instrumentos de delegação de serviços públicos estruturam-se como arranjos voltados à exploração de atividades que, em regra, apresentam características de monopólio natural, com elevados custos iniciais e demanda por investimentos contínuos.

A amortização desses investimentos ocorre em horizontes temporais longos, geralmente superiores a duas ou três décadas, período durante o qual o empreendimento permanece exposto a alterações macroeconômicas, mudanças regulatórias, evolução tecnológica, reorientações de política pública e, em contextos mais recentes, a choques decorrentes de tensões geopolíticas e conflitos internacionais.

Essa exposição prolongada amplia o grau de incerteza enfrentado pelo investidor e se reflete diretamente na remuneração exigida pelo capital empregado. Quanto maior a instabilidade institucional ou regulatória associada ao contrato, maior tende a ser o prêmio de risco incorporado ao custo do projeto, com impactos diretos sobre a estrutura de custos e, consequentemente, sobre as tarifas.

O princípio do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos administrativos exige que a relação entre encargos e vantagens assumidas pelas partes seja preservada ao longo de toda a execução contratual. A equação inicial pressupõe adequada identificação, mensuração e alocação dos riscos inerentes ao empreendimento, bem como mecanismos aptos a preservar esse equilíbrio.

Quando essa mensuração se revela inadequada, surgem distorções relevantes: a subestimação de custos compromete a viabilidade futura da concessão e a qualidade do serviço; a superestimação ou a alocação excessiva de riscos ao setor privado tende a ser incorporada às propostas na forma de prêmios adicionais, elevando tarifas e reduzindo a competitividade.

A modicidade tarifária não pode ser compreendida como mera compressão artificial de preços. Ela resulta de uma equação ampla, na qual tarifas módicas são aquelas compatíveis com a cobertura eficiente dos custos, a remuneração adequada do investidor e a preservação da capacidade de investimento do setor, assegurando simultaneamente o acesso digno da coletividade a serviços públicos essenciais.

A formação de preços em concessões depende, portanto, de uma avaliação multifatorial de riscos: de um lado, a análise realizada pelo poder concedente ao estruturar o edital e os parâmetros tarifários; de outro, a avaliação conduzida pelos agentes privados ao examinar o arcabouço regulatório, o histórico do setor e o ambiente político-institucional.

A definição de fórmulas tarifárias, critérios de revisão, parâmetros de eficiência e taxa de remuneração regulatória exige avaliação técnica minuciosa. Elementos como a Base de Remuneração Regulatória (BRR), a taxa de remuneração regulatória e os ciclos periódicos de revisão tarifária buscam recalibrar a equação econômica da concessão diante da evolução dos custos, dos investimentos e das condições macroeconômicas.

Esses processos ocorrem no âmbito do devido processo regulatório, com consultas públicas, audiências e análises de impacto regulatório, ampliando a transparência e reduzindo assimetrias informacionais.

Se a estruturação governamental define parâmetros iniciais, a formação efetiva do preço ocorre quando o agente privado internaliza os riscos do contrato. Alterações abruptas de políticas públicas ou mudanças imprevisíveis nas regras regulatórias ampliam a percepção de instabilidade institucional e passam a ser incorporadas como componente do risco sistêmico.

Isso eleva o custo de capital exigido pelos investidores e financiadores, podendo resultar em tarifas mais elevadas ou em menor atratividade para novos investimentos. Em sentido inverso, ambientes regulatórios estáveis e previsíveis reduzem o prêmio de risco, favorecendo custos de capital mais baixos e condições mais eficientes para o financiamento de projetos.

A modicidade tarifária deve ser analisada sob perspectiva dinâmica. Tarifas artificialmente reduzidas, dissociadas da realidade de custos e riscos, comprometem a capacidade de investimento das concessionárias, a manutenção de ativos e a expansão da infraestrutura.

A adequada mensuração e alocação de riscos constitui condição essencial para a formação de tarifas estruturalmente eficientes, na medida em que reduz o prêmio de risco associado à incerteza regulatória.

A experiência brasileira demonstra que previsibilidade institucional, transparência regulatória e participação estruturada dos agentes econômicos contribuem para reduzir assimetrias informacionais e aprimorar a qualidade das decisões.

Em última instância, a racionalidade econômica das concessões depende da capacidade institucional de transformar incerteza em variável mensurável e administrável, permitindo conciliar segurança jurídica, sustentabilidade financeira e interesse público.

Em contextos de conflito armado, os efeitos sobre contratos de concessão não se limitam a variações marginais de custo, mas alcançam a própria estrutura econômica dos projetos, elevando o custo operacional e ampliando a volatilidade. Intervenções unilaterais sobre o domínio econômico, quando não acompanhadas de critérios claros, afetam a confiança dos investidores e serão precificadas como risco regulatório em ciclos futuros.

A interação entre risco geopolítico, intervenção estatal e regulação doméstica evidencia que a modicidade tarifária não se sustenta sem estabilidade institucional.

Por Lucas Monet


Fonte: CNN Brasil
Foto: Canva

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